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NA CURVA DO CAMINHO – Testemunhos de
Pais,
foi
escrito a cinco mãos, por cinco pais em luto e só foi compilado no momento de
ser enviado para a gráfica. Assim, cada participante escreveu o que sentia,
utilizando temas aleatoriamente distribuídos. Quisemos, fundamentalmente, não
ser influenciados uns pelos outros, e dar testemunhos reais e isentos de
imaginação gratuita.
É o caminho daqueles que tiveram a coragem
de se interrogar e aceitar olhar para si próprios; que descobriram a sua força
interior e modificaram a forma de amar; que fizeram da sua dor uma fonte de
maturidade e aprenderam a partilhar o sofrimento dos outros; que tiveram a
ousadia de explorar novos horizontes e descobrir
verdadeiros amigos; é a história daqueles que,
apesar das suas perdas, querem voltar a amar que, “A Nossa Âncora” vos revela
“NA CURVA DO CAMINHO” .
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prefácio
Julgo serem poucas as questões que
levantam tanta penosidade a um médico como aquelas que
enfrenta quando lhe é pedida ajuda por um pai que perdeu
um filho.
Não tanto pelos
sentimentos que assaltam o próprio cuidador, nesse quase
mágico caldeirão de marés e contramarés emocionais, que
perpassam por todas as molduras da relação médico-doente
mas, sobretudo, pelo sentimento da quase impotência com
que se esbarra no poder de «curar» ou até de «tratar»
essa tão profunda «doença da alma». Por outro lado, e
paradoxalmente, as próprias Faculdades de Medicina pouco
preparam (pelo menos no meu tempo era assim e julgo que
ainda hoje o é) os seus alunos para gerir a complexa
teia de problemas que o espectro da morte evoca naqueles
que estão doentes, nos familiares dos que morrem, e
mesmo em si próprios. Todo o ensino, toda a
aprendizagem, todo o treino, são feitos no sentido
contrário, ou seja, na luta, por vezes encarniçada até
demais, contra a morte. A morte para o médico é sempre a
derrota total.
É claro que se ensinam as vicissitudes psicológicas dos
fenómenos do luto humano, as suas fases, os seus
desvios, as suas atribulações, o seu tratamento
farmacológico, mas sempre com um enfoque que poderia
designar de unidimensional, tal como o do aluno que
estuda friamente o
Helicobacter pilorii na lamela do seu
microscópio.
Ajudar uma pessoa em luto é uma tarefa complicada para
um médico. Ajudar um pai em luto é, para além disso, um
trabalho que exige um manejo delicado de outros
instrumentos que habitualmente não se encontram na mão
do próprio médico.
Em primeiro lugar temos perante nós seres humanos
literalmente despedaçados, num vazio existencial sem
fundo donde apenas emergem, aqui e ali, ondas
perturbadoras de revolta, culpabilidade e de remorso.
Por outro lado, são habitualmente os filhos que
perpetuam a memória dos pais numa tarefa também sofrida
mas naturalmente esperada. Para um pai perpetuar a
memória de um filho é necessário empreender um caminho
tão doloroso que, por vezes, alguns deles se tentam
esconder por detrás de múltiplas muralhas e de defesas
laboriosamente erguidas de esquecimento e de anestesia.
Mas a ferida está lá, manifestada por outras formas
tantas vezes orgânicas e comportamentais.
Com o tempo vim a
compreender melhor a importância desse motor suavizante,
transformador e até sublimador da perpetuação da memória
de um filho ausente, e assim, há doze anos atrás, após
uma «epidemia» de trágicos falecimentos de jovens em
acidentes
rodoviários ocorridos em Sintra – onde se localiza o
Serviço-extensão do
Hospital Miguel Bombarda que dirijo – pedi à Maria
Emília Pires que se encontrasse com algumas das mães que
vinha tentando ajudar.
Pedi-lhe apenas que falasse com as
minhas doentes.
A Maria Emília fez tudo o resto.
João Sennfelt |
Posfácio
São cinco os autores deste livro, que entrelaçam
as suas experiências e as suas vidas, Na Curva do Caminho, com os
testemunhos de muitos outros pais que nos mostram como é a vida antes,
durante e depois da perda de um filho.
O seu percurso é também o nosso,
essa dor maior que não se pode imaginar e com a qual se sente que não se
consegue viver.
Estes depoimentos emocionantes, mas nem por isso menos lúcidos,
envolvem-nos, empolgam-nos, fazem-nos
pensar, afligir e sorrir, levam-nos a vivenciar com(o) eles
muitas das dimensões da nossa vida comum: familiar, conjugal, social e
profissional.
Seguramente que todas as mães e pais que perderam filhos se poderão
encontrar ou descobrir mais um pouco neste livro, chorar a sua dor e
aprender a continuar a viver sem aqueles que nunca esquecerão e que
guardarão no seu coração para sempre.
Mas quem não passou por esta situação de perda, pode igualmente
encontrar aqui fortes razões para valorizar e amar ainda mais aqueles
que lhe são próximos e a Vida.
Em suma, não tenho dúvidas de que este é um livro maravilhoso!
Isabel Correia
Este livro foi publicado no final de 2005 para entrar nas comemorações
do 10º aniversário que iriam ter lugar desde o início de 2006. |
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