a nossa história
2005
 

      

Publicação do segundo livro: "Na Curva do Caminho"

 

NA CURVA DO CAMINHO – Testemunhos de Pais, foi escrito a cinco mãos, por cinco pais em luto e só foi compilado no momento de ser enviado para a gráfica. Assim, cada participante escreveu o que sentia, utilizando temas aleatoriamente distribuídos. Quisemos, fundamentalmente, não ser influenciados uns pelos outros, e dar testemunhos reais e isentos de imaginação gratuita.
É o caminho daqueles que tiveram a coragem de se interrogar e aceitar olhar para si próprios; que descobriram a sua força interior e modificaram a forma de amar; que fizeram da sua dor uma fonte de maturidade e aprenderam a partilhar o sofrimento dos outros; que tiveram a ousadia de explorar novos horizontes e descobrir verdadeiros amigos; é a história daqueles que, apesar das suas perdas, querem voltar a amar que, “A Nossa Âncora” vos revela “NA CURVA DO CAMINHO” . 
                                      


prefácio

Julgo serem poucas as questões que levantam tanta penosidade a um médico como aquelas que enfrenta quando lhe é pedida ajuda por um pai que perdeu um filho.
Não tanto pelos sentimentos que assaltam o próprio cuidador, nesse quase mágico caldeirão de marés e contramarés emocionais, que perpassam por todas as molduras da relação médico-doente mas, sobretudo, pelo sentimento da quase impotência com que se esbarra no poder de «curar» ou até de «tratar» essa tão profunda «doença da alma». Por outro lado, e paradoxalmente, as próprias Faculdades de Medicina pouco preparam (pelo menos no meu tempo era assim e julgo que ainda hoje o é) os seus alunos para gerir a complexa teia de problemas que o espectro da morte evoca naqueles que estão doentes, nos familiares dos que morrem, e mesmo em si próprios. Todo o ensino, toda a aprendizagem, todo o treino, são feitos no sentido contrário, ou seja, na luta, por vezes encarniçada até demais, contra a morte. A morte para o médico é sempre a derrota total.
É claro que se ensinam as vicissitudes psicológicas dos fenómenos do luto humano, as suas fases, os seus desvios, as suas atribulações, o seu tratamento farmacológico, mas sempre com um enfoque que poderia designar de unidimensional, tal como o do aluno que estuda friamente o Helicobacter pilorii na lamela do seu microscópio.
Ajudar uma pessoa em luto é uma tarefa complicada para um médico. Ajudar um pai em luto é, para além disso, um trabalho que exige um manejo delicado de outros instrumentos que habitualmente não se encontram na mão do próprio médico.
Em primeiro lugar temos perante nós seres humanos literalmente despedaçados, num vazio existencial sem fundo donde apenas emergem, aqui e ali, ondas perturbadoras de revolta, culpabilidade e de remorso. Por outro lado, são habitualmente os filhos que perpetuam a memória dos pais numa tarefa também sofrida mas naturalmente esperada. Para um pai perpetuar a memória de um filho é necessário empreender um caminho tão doloroso que, por vezes, alguns deles se tentam esconder por detrás de múltiplas muralhas e de defesas laboriosamente erguidas de esquecimento e de anestesia. Mas a ferida está lá, manifestada por outras formas tantas vezes orgânicas e comportamentais.
Com o tempo vim a compreender melhor a importância desse motor suavizante, transformador e até sublimador da perpetuação da memória de um filho ausente, e assim, há doze anos atrás, após uma «epidemia» de trágicos falecimentos de jovens em acidentes rodoviários ocorridos em Sintra – onde se localiza o Serviço-extensão do Hospital Miguel Bombarda que dirijo – pedi à Maria Emília Pires que se encontrasse com algumas das mães que vinha tentando ajudar.

Pedi-lhe apenas que falasse com as minhas doentes.
A Maria Emília fez tudo o resto.
                                                                                                                            
João Sennfelt


Posfácio

São cinco os autores deste livro, que entrelaçam as suas experiências e as suas vidas, Na Curva do Caminho, com os testemunhos de muitos outros pais que nos mostram como é a vida antes, durante e depois da perda de um filho.
O seu percurso é também o nosso, essa dor maior que não se pode imaginar e com a qual se sente que não se consegue viver.
Estes depoimentos emocionantes, mas nem por isso menos lúcidos, envolvem-nos, empolgam-nos, fazem-nos pensar, afligir e sorrir, levam-nos a vivenciar com(o) eles muitas das dimensões da nossa vida comum: familiar, conjugal, social e profissional.
Seguramente que todas as mães e pais que perderam filhos se poderão encontrar ou descobrir mais um pouco neste livro, chorar a sua dor e aprender a continuar a viver sem aqueles que nunca esquecerão e que guardarão no seu coração para sempre.
Mas quem não passou por esta situação de perda, pode igualmente encontrar aqui fortes razões para valorizar e amar ainda mais aqueles que lhe são próximos e a Vida.
Em suma, não tenho dúvidas de que este é um livro maravilhoso!

Isabel Correia

Este livro foi publicado no final de 2005 para entrar nas comemorações do 10º aniversário que iriam ter lugar desde o início de 2006.

 

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