a nossa história
2003
 

      

Publicação do primeiro livro "Dar e Amar"

Abílio Oliveira tinha escrito um poema "Deixar Partir, Amar a Vida" , para o nosso Fórum que se realizou em Dezembro de 2002 no Centro Cultural de Belém. A declamação do poema teve tal impacto nas trezentas pessoas que enchiam a sala que, choveram pedidos de todos os lados para que o poema fosse publicado.
Foi então que Abílio decidiu escrever mais cinco poemas e, entre ele e a Maria Emília, o livro foi sonhado e elaborado em 15 longas noitadas, cada um em sua casa, comunicando-se por email e telemóvel.
Foi um trabalho fantástico, muito duro, mas que valeu a pena.

 

PRÓLOGO

«Cantando a Vida como o cisne a Morte» - cito Bocage - Abílio Oliveira possui esse grande dom de despertar «o alguém» que dorme em nós. Ele exprime por palavras aquilo que o mais íntimo do nosso ser acredita ser verdadeiro.

Ler este livro é encontrarmo-nos em cada linha, é dar de caras com o amigo que está ali para nos compreender, ouvir e ajudar. É descobrir que esse «alguém» vive dentro de nós. Somos nós próprios.

Abílio Oliveira faz as perguntas e conduz-nos às respostas há tanto procuradas, envolvendo-nos numa  paz que nos torna em novos homens, novas mulheres.

Voltar a ser criança, a sonhar, a brincar «ao faz de conta», a extasiar-se com as coisas grandiosas  tanto como com os pequenos nadas, é um dos segredos da poesia de Abílio  Oliveira.

Não há despedidas neste livro mas, a preparação do reencontro que acontecerá no tempo, porque, quem verdadeiramente se ama não se separa nunca.

A sua leitura obriga-nos  a parar para limpar as lágrimas que, teimosas, insistem em correr. São as recordações bordadas de saudade. Os momentos de ternura que voltamos a viver, tão real é a sua apresentação. É a esperança que renasce da raiva, da culpa, do desespero, porque a morte nos é contada como quem conhece os versos do segredo da vida.

Obrigada Abílio pela generosidade de partilhar connosco o seu dom, por nos levar a acreditar que a vida é uma faísca que nós podemos transformar numa chama ardente que nunca mais se apaga. «Dar e Amar» são os únicos combustíveis que alimentam a intensidade dessa chama. Tudo o que não se der, perde-se.

Maria Emília Pires

08-10-2003

POSFÁCIO           

Um grande desafio ou descoberta colhi neste livro:

Antes de o ler eu era uma pessoa, depois de o ler senti-me outra. Creio que convosco se passou o mesmo. De facto, lê-lo é todo um percurso, uma viagem por dentro de nós, como um barco sem velas nem remos que desliza por um rio de águas muito profundas mas tão claras e cristalinas que nos permitem ver bem o fundo, as pedras, os escolhos, os limos e os corais. Ele dá-nos assim um Sentido, sobretudo naquilo que, por tão doloroso e injusto, parece para alguns de nós não ter sentido algum. Esse verdadeiro e único sentido é-nos dado, transmitido com uma enorme simplicidade, plenitude e beleza. Desafia-nos, enleva-nos, perturba-nos, incentiva-nos. É todo um caminho onde se chora com uma sensação de infinda felicidade e onde se sorri também num indizível sentimento de ternura. Quem o escreve é um espírito esclarecido, inspirado, iluminado posso dizê-lo, que se transpõe, se transcende. Dir-se-ia que Abílio  Oliveira viveu, ele próprio, toda a experiência e as fases que se percorrem no luto pela perda de um filho. Ele está lá, todo, de corpo e alma, na dor da Mãe, do Pai, do Irmão. E ainda que ele não tenha na realidade vivido essa experiência tão amarga e devastadora, a sua Alma soube vivê-la e transmiti-la de forma tão genuína, tão bela, tão sentida, tão humana! Consegue assim realizar em nós aquilo que ouso chamar o "Milagre da transformação ou transfiguração", aproxima-nos do Transcendental, da Verdade da Vida em toda a sua dimensão, da sua Infinitude.
Não deixa contudo, de dar importância às mais pequenas e ínfimas coisas, certos pormenores desta nossa efémera vida, mas vistas à luz do nosso Olhar Interior ou seja da Memória que em nós permanece viva, sagrada, como que num Santuário. Bem-haja! Pela sua mensagem, pelo bem que trouxe a todos os que partilhamos a Dor e o Amor nesta "Nossa Âncora". Pouco mais posso dizer do que isto pois os sentimentos quanto mais profundos (o Amor, a Dor, a Poesia...) tanto mais difícil é traduzi-los em palavras.
Uma coisa me permito realçar, para além de tudo: É que o Abílio aponta-nos um caminho (para mim o único), ligado a um sentido de mudança em nós próprios, posto que a vida é mudança, em cada minuto e segundo que passa e ensina-nos a compreender que essa mudança deverá ser sempre para melhor, na busca, no acto lúcido e consciente de Crescermos no conhecimento cada vez mais profundo de nós próprios, vencendo todas as nossas barreiras de temor ou culpa, até ao fim dos nossos dias. Por isso me atrevo a terminar com um soneto (logo um soneto com todas as suas regras e métrica...) mas que exprime, o melhor que pude, esse meu (e seu) conceito de mudança.
Aqui lho deixo e lho dedico com toda a Amizade e como simples homenagem, que bem merece, por este livro onde pôs toda a sua Alma.

Mudança

Há um minuto atrás não era eu

Por isso só me atraso se descrevo

Esta mudança brusca que se deu...

Não diria o que sinto no que escrevo.

 

Sou outro já, no que me aconteceu,

Todo o frio que tinha me aqueceu.

Não estou no que fiquei, sou a mudança:

O movimento, o sangue, o vento, a dança.

 

Onda de azul, crisálida de lodo,

Gota de chuva que arde em mar de fogo

Demónio ou anjo? Queda ou ascensão?

 

Sou o leve tremor, a vibração

De uma folha que corre o mundo todo

E por momentos pousa em minha mão.

Roberto Durão
Setembro 2003

 

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