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PRÓLOGO
«Cantando a Vida como o cisne a Morte» - cito Bocage - Abílio
Oliveira possui esse grande dom de despertar «o alguém» que dorme em nós.
Ele exprime por palavras aquilo que o mais íntimo do nosso ser acredita
ser verdadeiro.
Ler este livro é encontrarmo-nos em cada linha, é dar de caras com o amigo que está ali
para nos compreender, ouvir e ajudar. É descobrir que esse «alguém»
vive dentro de nós. Somos nós próprios.
Abílio Oliveira
faz as perguntas e conduz-nos às respostas há tanto procuradas,
envolvendo-nos numa paz que
nos torna em novos homens, novas mulheres.
Voltar a ser
criança, a sonhar, a brincar «ao faz de conta», a extasiar-se com as
coisas grandiosas tanto como
com os pequenos nadas, é um dos segredos da poesia de Abílio
Oliveira.
Não há
despedidas neste livro mas, a preparação do reencontro que acontecerá
no tempo, porque, quem verdadeiramente se ama não se separa nunca.
A
sua leitura obriga-nos a parar para limpar as lágrimas que, teimosas, insistem em
correr. São as recordações bordadas de saudade. Os momentos de ternura
que voltamos a viver, tão real é a sua apresentação. É a esperança
que renasce da raiva, da culpa, do desespero, porque a morte nos é
contada como quem conhece os versos do segredo da vida.
Obrigada Abílio
pela generosidade de partilhar connosco o seu dom, por nos levar a
acreditar que a vida é uma faísca que nós podemos transformar numa
chama ardente que nunca mais se apaga. «Dar e Amar» são os únicos
combustíveis que alimentam a intensidade dessa chama. Tudo o que não se
der, perde-se.
Maria Emília Pires
08-10-2003
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POSFÁCIO
Um grande desafio ou
descoberta colhi neste livro:
Antes de o ler eu era uma pessoa,
depois de o ler senti-me outra. Creio que convosco se passou o mesmo. De
facto, lê-lo é todo um percurso, uma viagem por dentro de nós, como um
barco sem velas nem remos que desliza por um rio de águas muito profundas
mas tão claras e cristalinas que nos permitem ver bem o fundo, as pedras,
os escolhos, os limos e os corais. Ele dá-nos assim um Sentido, sobretudo
naquilo que, por tão doloroso e injusto, parece para alguns de nós não
ter sentido algum. Esse verdadeiro e único sentido é-nos dado,
transmitido com uma enorme simplicidade, plenitude e beleza. Desafia-nos,
enleva-nos, perturba-nos, incentiva-nos. É todo um caminho onde se chora
com uma sensação de infinda felicidade e onde se sorri também num indizível
sentimento de ternura. Quem o escreve é um espírito esclarecido,
inspirado, iluminado posso dizê-lo, que se transpõe, se transcende.
Dir-se-ia que Abílio Oliveira
viveu, ele próprio, toda a experiência e as fases que se percorrem no
luto pela perda de um filho. Ele está lá, todo, de corpo e alma, na dor
da Mãe, do Pai, do Irmão. E ainda que ele não tenha na realidade vivido
essa experiência tão amarga e devastadora, a sua Alma soube vivê-la e
transmiti-la de forma tão genuína, tão bela, tão sentida, tão humana!
Consegue assim realizar em nós aquilo que ouso chamar o "Milagre da
transformação ou transfiguração", aproxima-nos do Transcendental,
da Verdade da Vida em toda a sua dimensão, da sua Infinitude.
Não deixa contudo, de dar importância
às mais pequenas e ínfimas coisas, certos pormenores desta nossa efémera
vida, mas vistas à luz do nosso Olhar Interior ou seja da Memória que em
nós permanece viva, sagrada, como que num Santuário. Bem-haja! Pela sua
mensagem, pelo bem que trouxe a todos os que partilhamos a Dor e o Amor
nesta "Nossa Âncora". Pouco mais posso dizer do que isto pois
os sentimentos quanto mais profundos (o Amor, a Dor, a Poesia...) tanto
mais difícil é traduzi-los em palavras.
Uma
coisa me permito realçar, para além de tudo: É que o Abílio aponta-nos
um caminho (para mim o único), ligado a um sentido de mudança em nós próprios,
posto que a vida é mudança, em cada minuto e segundo que passa e
ensina-nos a compreender que essa mudança deverá ser sempre para melhor,
na busca, no acto lúcido e consciente de Crescermos no conhecimento cada
vez mais profundo de nós próprios, vencendo todas as nossas barreiras de
temor ou culpa, até ao fim dos nossos dias. Por isso me atrevo a terminar
com um soneto (logo um soneto com todas as suas regras e métrica...) mas
que exprime, o melhor que pude, esse meu (e seu) conceito de mudança.
Aqui
lho deixo e lho dedico com toda a Amizade e como simples homenagem, que
bem merece, por este livro onde pôs toda a sua Alma.
Mudança
Há
um minuto atrás não era eu
Por
isso só me atraso se descrevo
Esta
mudança brusca que se deu...
Não
diria o que sinto no que escrevo.
Sou
outro já, no que me aconteceu,
Todo
o frio que tinha me aqueceu.
Não
estou no que fiquei, sou a mudança:
O
movimento, o sangue, o vento, a dança.
Onda
de azul, crisálida de lodo,
Gota
de chuva que arde em mar de fogo
Demónio
ou anjo? Queda ou ascensão?
Sou
o leve tremor, a vibração
De
uma folha que corre o mundo todo
E
por momentos pousa em minha mão.
Roberto
Durão
Setembro
2003 |