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Uma imensa amargura apertava-me a alma. Pensava em
todas as famílias que tinham perdido os seus filhos este ano e como
seria tão triste o seu Natal. Deixei-me transportar para o primeiro
Natal depois da morte da minha filha e ali fiquei, envolta em
recordações, olhando as chamas que crepitavam na lareira. Depois...
senti-me muito leve, não fazia frio nem calor, não era noite nem dia.
Era irreal. Nunca tinha estado num lugar como aquele. Alguém me conduzia
pela mão. Era levada mas não sabia por quem. "Sou eu mãe, a sua filha.
Tem que acreditar, não precisa ver. Vamos levar todos os filhos a casa
dos seus pais para passarem o Natal." Percebi que uma multidão de seres
nos acompanhava. Não se ouvia o mais ligeiro som. Não se via nada mas o
que sentia tomava forma. O ambiente era de grande paz e serenidade.
Nunca saberei como me desloquei mas, tenho bem presente que batemos a
milhares de portas que se abriram para receber os seus filhos. Em todas
as casas reinava o Amor. Quando deixámos o último jovem acordei... Que
sonho estranho, pensei, mas a angústia tinha desaparecido. Estava serena
e feliz. Tenho que contar já este sonho a todos os pais.
Quando nós queremos muito uma coisa, quando acreditamos de verdade,
somos capazes de a fazer acontecer, nem que seja só em sonho.
Um Santo Natal
Maria Emília |