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Eu nada sabia sobre a morte.
A dor da partida dos parentes queridos (nomeadamente os meus Pais), abalou a
minha vida. O meu caminho foi interrompido com lágrimas e com sofrimento.
Partiram. Ficou a saudade e a muita falta que, afectivamente, me fizeram.
Mas eu nada fiquei a saber sobre a morte.
A vida, aos poucos, retomou o seu curso normal, qual rio sulcando o seu
leito, vencendo obstáculos, parando por vezes em pequenos lagos, para logo
retomar o seu caminho, sempre em frente, tendo como meta o grande oceano.
Fiquei a saber que a tristeza da separação é muito dolorosa e o sofrimento
uma tempestade violenta que sacode o frágil ser humano.
A minha fé grande num Deus que me tinha criado e que presidia à minha
caminhada por um mundo, que eu achava maravilhoso, não foi abalada. Tudo
ficou bem. Aqui nada estremeceu. A minha concepção do universo tinha ainda
os contornos da meninice. Havia em mim uma maneira muito pura de aceitação
daquilo que a capacidade humana não pode modificar.
E eu voltei a ter paz. O meu encontro com a morte deu-me a conhecer que a
felicidade se transforma, a saudade toma o lugar da ausência e que temos a
promessa divina duma pátria celeste por toda a eternidade onde, finalmente,
todos nos encontraremos.
E, lentamente, a normalidade voltou a reinar. De tal modo que o equilíbrio
entre a morte que tinha passado e a vida que continuava, se voltou a
instalar. E a harmonia na minha casa, onde tudo estava certo — um espaço de
amor, de partilha, de crescimento —, parecia um rochedo inabalável.
E eu, comodamente, comecei a achar que tudo sabia sobre a morte, porque já a
tinha encontrado no meu caminho. Tinha-me marcado. Fiquei sem aqueles que eu
muito amava. Tinha chorado. Tinha sofrido.
Temor, respeito, mistério! Era isso. A morte. Assim eu a entendia.
Mas, afinal, eu nada sabia sobre ela…
Até que um dia, um pedaço de mim foi arrancado. Voou. Saiu da minha casa e
eu nunca mais o vi. Era o meu filho que partia para a viagem sem regresso.
Deixou tudo quanto ele amava neste mundo. Tudo e todos. Nunca mais o pude
abraçar nem falar com ele. Nunca mais recebi um beijo seu. Nunca mais nos
sentámos juntos a ver um filme. Nunca mais ouvi o tilintar das suas chaves
ao chegar a casa, nem o seu "olá" sereno. Nunca mais o ouvi rir e brincar
com os irmãos. Não, nunca mais.
Foi tudo tão rápido.
Partiu sem nada. Tudo quanto ele gostava ficou. Os seus livros, os seus
discos, os seus escritos… As suas roupas ficaram penduradas no roupeiro. Os
seus projectos ficaram por concluir. Os seus amigos choraram, mas foram
retomando os seus caminhos.
Tinha morrido o Francisco. Morreu. O Francisco morreu.
E eu, no meio do meu sofrimento, rodopiando sobre a minha tristeza, na ânsia
desesperada de voltar a encontrar aquele sol que me norteava, pensava, como
era possível ele ter desaparecido.
Morreu!…Não, não era resposta.
Mas o seu lugar estava vazio. A nossa casa estava envolta num luto imenso.
Sofríamos tanto… Porquê? Onde estava ele? Como pode desaparecer uma pessoa
que tanto amamos, a quem devotámos a nossa vida, sem um sinal que nos diga:
está aqui ou está ali…?
Morreu , está no céu. Morreu, está muito bem agora.
Eram palavras muito vagas de quem nada mais pode dizer e aceites porque a
presença dos outros e a tentativa de nos reconfortarem, fazem parte destes
momentos de angústia.
Durante muito tempo não consegui relacionar a palavra morte com o
Francisco. Aquele filho tão querido não podia estar morto. Aquela criança
gerada com tanto amor, que apertei tantas vezes nos meus braços, não podia
agora jazer na quietude dum cemitério
Toda aquela compreensão em aceitar aquilo que humanamente não podemos mudar
pelas nossas mãos, agora não me servia de nada.
Tratava-se do meu filho. Os meus pais partiram antes de mim. Ainda hoje
sinto a sua falta. Sofri, mas aceitei. Foi um sofrimento inserido na ordem
natural da vida.
Mas agora era o meu filho. Eu não estava preparada. A vida dele deveria ser
longa, bonita, feliz. Era um rapaz inteligente, brilhante e muito
determinado. Como aconteceu este corte com o mundo?
O sofrimento faz pensar muito e faz-nos crescer interiormente.
Envolta numa mistura de sentimentos que me trucidavam, desespero, dor,
revolta, eu perguntava do fundo do meu coração: meu Deus porquê o Francisco?
Porque deixaste que isto acontecesse connosco? Porque não Lhe dás vida outra
vez? Porque não o mandas de volta? Porquê? Porquê?
E estes monólogos não ficaram sem resposta.
Uma luz veio iluminar o meu pensamento e uma nova visão sobre a morte entrou
no meu espírito.
A presença do Francisco começou a ser constante no meio de nós. Não o vemos
fisicamente. Isso dilacera-me, mas eu sei que ele partilha a nossa vida.
Tenho muitas razões para pensar isso. Ele vem em nosso auxílio em pequenas
coisas que eu lhe peço, outras, nem é preciso dizer-lhe nada. Ele está
atento.
Ora, se isto acontece, é porque o meu filho está a gozar aquilo em que
nós acreditamos: a vida eterna. E o que Cristo disse:— quem crê em Mim não
morrerá —, é verdade.
Portanto, eu tinha que começar a pensar na morte de outro modo
O Francisco não está connosco fisicamente. Não pode comunicar através dos
meios de que a nossa sociedade dispõe. Por isso, nós não o vemos nem falamos
com ele. Tem outra morada. Mas vive.
Não veste certamente as mesmas roupas que tinha. Não está condicionado ao
uso do automóvel para se deslocar. É mais rápido que nós. Não tem as
preocupações do dia a dia que nós temos. Está liberto. Mas pensa em nós.
Então a morte tem que ser encarada de outra maneira. Não pode ser só
respeito, temor, mistério. É antes o começo duma vida nova. Uma vida em que
eu hoje creio sem reservas. Em que eu acredito já sem o floreado da minha
infância, mas com a convicção de que foi para ela que nós fomos criados.
Consola-me pensar que o Francisco não partiu para o vazio, para o nada,
mas para outra morada. Começou a sua nova vida definitivamente. Foi o
primeiro. Quando eu lá chegar ele estará à minha espera. A morte não é o fim
para nós, é sim o começo duma nova maneira de viver.
Fazer esta caminhada até aqui foi uma bênção de Deus. O sofrimento fez
crescer a minha fé. A dor e as lágrimas não secaram. O meu coração continua
a sangrar. Mas cada dia que passa sinto a minha família mais unida porque o
lugar do Francisco não está vazio. Simplesmente tem uma nova morada. E eu
tenho muitas saudades dele.
A morte é o começo da verdadeira vida. Mas só nos debruçamos sobre esta
certeza, quando de um filho se trata. Antes, por muito grande que fosse a
dor, aceitava-se, sem ser necessária longa meditação.
A morte não é o fim. É apenas uma separação. É o começo da Vida Eterna.
Maria Clara
(escrito no 28º aniversário do Francisco
"Yerushalayim
Shel Zahav" N. Shemer - Songs of Peace |