o luto

fases do luto
berço vazio
morrer jovem
fim de vida

 

 
   
   

Uma vez o trabalho emocional quase terminado, é preciso realizar também as tarefas resultantes da perda:
- Acabar conversas não terminadas transformando-as, por exemplo, em cartas que se escrevem, arrumar fotografias em álbuns, desfazer-se dos objectos da pessoa que partiu, satisfazer promessas feitas ao defunto, etc.
Não há que fiar nas aparências. Estes actos não são nada simples. Nunca é fácil desfazermo-nos ou separarmo-nos das provas de uma felicidade que não volta mais. Porém, quando conseguidos, ajudam-nos a compreender o verdadeiro sentido da perda e a acelerar a cura.
Não se trata de trair o nosso passado ou a pessoa que partiu, mas de nos permitir ir até ao fim do nosso trabalho. Poderemos atenuar os efeitos dolorosos e radicais desta separação material. Basta conservar uma ou duas coisas, por exemplo um boneco, um disco, um objecto qualquer. Estes derivativos, chamados de "objectos de transição", serão muito úteis, principalmente quando percebermos que o nosso luto está feito.
Há medida em que vamos saindo da concha em que nos escondemos para  olhar  de novo o mundo, que chama por nós, o sofrimento atenua-se. Durante longos momentos já conseguimos dar atenção aos nossos afazeres sem pensar constantemente nele(a) que perdemos. Todavia, temos a sensação de que um grande vazio tomou conta do nosso ser e perguntamo-nos como é que o poderemos ocupar. Chegou o tempo de o encher com tudo o que aprendemos e recebemos no decurso da relação que agora não existe mais. Porque, se se vive intensamente com alguém, esse  filho(a) ensinaram-nos com certeza qualquer coisa.
Há que fazer o balanço das qualidades que ele(a) possuía. Esse seu modo de ser tão particular que, mais ou menos conscientemente procurávamos, começamos a descobri-lo em nós, num estado de desejo, sem o poder exprimir ou desenvolver. Agora que ele(a) partiu, essas qualidades são nossas.

            Um lindo sorriso.
            Um olhar de ternura
            Uma certa doçura.
            A sua simpatia.
            A sua generosidade.
            O seu sentido de humor.
            A sua inteligência.
            Uma forma de se afirmar.
            A sua força de vontade.
            Um gosto especial por ajudar o outro.
            O amor pela música, por um livro.
            Uma forma particular de tomar conta de si.
            Uma concepção diferente sobre a existência.
            Um desporto preferido.
            Um novo centro de interesse.

Enquanto vivemos com ele(a) fizemos sucessivas aprendizagens inconscientes, das quais poderemos agora recolher os frutos.
À medida que vamos entrando na posse dessa herança, o vazio deixado pela ausência vai desaparecendo. Tomamos consciência que aquilo que admirámos e amámos é nosso, daqui para a frente. Somos o herdeiro.
Mesmo que o tempo de vivência em comum tenha sido muito pequeno, de algumas horas apenas, há com certeza um número imenso de coisas que fomos aprendendo desde o momento da concepção do nosso filho(a) e à medida que o nosso corpo se foi modificando. É preciso reunir todas essas recordações. São elas que vão encher o nosso vazio. São nossas.
Tendo conseguido largar completamente a carapaça que nos envolveu durante o tempo do nosso luto, sentimos que chegámos ao fim do caminho:

               - porque tivemos a coragem de nos interrogar,
               - porque aceitámos olhar para nós próprios,
               - porque modificámos a nossa forma de amar,
               - porque descobrimos a nossa força interior,
               - porque fizemos do nosso sofrimento uma fonte de maturidade,
               - porque fomos capazes de partilhar o sofrimento dos outros,
               - porque tivemos a coragem de explorar novos horizontes,
               - porque redescobrimos os nossos verdadeiros amigos,
               - porque adquirimos uma nova sensibilidade,
               - porque estamos prontos a fazer face a novas futuras perdas,
               - porque queremos voltar a amar,
               - porque aceitámos ser iniciados nesta nova sabedoria,
               - porque aprendemos que o amor é mais forte do que a morte.

 

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