o luto

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Quando as defesas cedem e a realidade da perda se impõe, emerge todo um conjunto de emoções: ansiedade, impotência, tristeza, cólera, culpabilidade, um sentimento de libertação, as lamentações da plena consciência da perda.
 

             A ansiedade e o medo

            Depois da perda manifesta-se um sentimento de ansiedade, um medo surdo de ver a vida desmoronar-se. Esta ansiedade provem de um grande sentimento de impotência perante a calamidade da morte. A pessoa enlutada sente perder o domínio sobre a vida e sobre a existência dos seres queridos.
Por vezes é um medo evidente. Esta emoção surge quando a negação e a cólera se mostram ineficazes para trazer de volta o ser perdido. O ser humano, que assenta a sua sobrevivência na pertença aos outros, sente um grande medo de ficar separado para sempre, não só da pessoa que partiu, mas de todos os outros.
“E se a minha dor me transforma em alguém tão diferente que já não pode continuar a fazer parte dos seus?”interroga-se. Esta reacção é muito normal, sobretudo na criança em luto. Ela irá mesmo até ao ponto de se excluir da companhia dos seus amigos,  por uma espécie de pudor ou medo de lhes comunicar a sua dor e ser assim posta de parte. O isolamento provocado pelo medo permite também à pessoa em luto “concentrar-se” na recordação do ser desaparecido e manter, no mais fundo dela própria, um diálogo interno com ele. O medo, esta emoção de sobrevivência, joga aqui um papel conservador da relação perdida.

             A tristeza

            É um sofrimento próprio do luto. Ela é provocada pelas primeiras tomadas de consciência da perda efectiva. Apresenta-se como uma espécie de dilaceramento interior. Na realidade é um trabalho de purgação dos laços afectivos que começa. É a dor do coração do indivíduo em contacto com a sua perda. Nada mais tem importância, poderia deixar-se morrer de desgosto. Muitas vezes, aliás, deseja não continuar a viver.
É importante não evitar esta fase. A pessoa não deve ser forçada a mudar de ideias. Pelo contrário, é preciso acompanhá-la naquilo em que ela se sente mal, deixá-la falar da sua dor, permitir-lhe viver o seu desgosto e chorar. Esta tristeza é acompanhada muitas vezes por estados depressivos: fadiga crónica, falta de concentração, auto acusação, insónia...

             A cólera

            A cólera é uma forma de prostração espontânea perante a ausência cruel do ser amado. Frente ao vazio da ausência, a pessoa enlutada pode sentir-se abandonada e, por vezes, rejeitada pelo desaparecido. Isso provoca nela uma cólera que não consegue deixar sair e ainda menos exprimir. A sociedade aceita mal a expressão da cólera, sobretudo em relação a alguém que morreu. A cólera pode então ser jogada sobre os outros, parentes, amigos... A pessoa em luto procura na realidade um culpado para a morte do ser amado.
Portanto, é essencial poder descarregar a sua cólera e não a reprimir. Às pessoas encolerizadas custa-lhes aceitar estarem  contra o ser amado que as deixou. É preciso lembrar-lhes várias vezes que isso não tem nada de inconveniente ou injusto para com o defunto. A cólera é uma emoção boa que só se sente em relação às pessoas amadas. Sentir cólera e amar não são incompatíveis, pelo contrário! É uma emoção que não é possível sentir-se se não houver uma ligação.

            A culpabilidade

            Para encontrar uma resposta para a sua angústia e para manter uma coerência interior, a criança é levada a transportar tudo sobre si própria, de uma forma egocêntrica. Assim, por exemplo, sentir-se-á culpada pela separação dos seus pais, pela morte do seu avô, etc. Da mesma forma, a pessoa enlutada corre o risco de voltar a sua cólera contra si própria ou de desenvolver um profundo sentimento de culpabilidade. Ela chega mesmo a acreditar que foi sobretudo “por causa de qualquer coisa que fez de mal” que o ser amado morreu. É o pensamento mágico da criança que se reactiva no adulto. Tenta então  preencher a falta de coerência sentindo-se culpada.

             O  sentimento de libertação

            É frequente esquecermo-nos que em todas as perdas existem também elementos de libertação. Este ser que tanto amávamos foi aliviado dos seus  sofrimentos pela morte; nós próprios podemos retomar uma vida normal depois de meses ou de anos em que uma situação de doença minava todas as energias... De todas as desgraças surge qualquer forma de libertação das angústias, do perigo que ameaçava a vida. O medo da infelicidade é muitas vezes pior do que a própria infelicidade, principalmente se a ameaça dura há muito tempo. É preciso ajudar a pessoa enlutada a exprimir e a apreciar este sentimento de libertação sem culpabilidade.

             Consciência plena da perda e sua aceitação

            O fim da fase da expressão das emoções e dos sentimentos sobrevém quando a pessoa em luto deixa de negar e toma consciência de toda a extensão da sua perda. Nessa altura, ela percebe que não é mais possível voltar atrás. É o fim da ligação.
Este momento caracteriza-se por uma intensidade de choros que se transformam em  lamentações. Mas a crise de dor é de curta duração. Deixa lugar a um sentimento de libertação e de paz, como se o pior já tivesse passado e agora é preciso deixar que a cura chegue.
Esta fase dolorosa é também a fase da aceitação, o princípio da cicatrização da ferida. As fases precedentes consistiam em abrir caminho, em tomar consciência da ferida, em criar as condições necessárias para uma cura possível. Com a aceitação, a cura começa verdadeiramente. A pessoa pode então falar da sua perda sem se deixar submergir pelas emoções. Poderá começar a evocar projectos para o futuro. Aceita viver com o vazio da perda que acabou de sofrer.
Este é um momento muito importante. Confirma que o luto não é o esquecimento da pessoa amada mas uma nova maneira de se ligar a ela.

 

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