Se há quem diga que os olhos são o
espelho da alma, uma casa reflecte a forma de estar de cada um.
Quem gosta da sua casa, investe nela
de várias formas, mas todas elas vão de encontro ao essencial: deve ser
um espaço de bem-estar, prazer para si e para os seus.
Uma casa, a nossa casa, nunca pode
ser um lugar a permanecer intacto, sem alterações.
Quando na nossa casa, um filho deixa
de fazer parte dela, pela sua indesejada partida, a casa passa a lugar
de contemplação e devoção. E a casa toda, quase sempre, passa a ser o
quarto do filho(a)..
A dor da saudade ameniza-se no
confronto visual e táctil, quando não sonoro, dos objectos que preenchem
aquele quarto. O quarto, vira a fotografia -viva, do filho(a), da sua
história, das suas vitórias e desilusões.
É um quarto memória.
E é aqui, que muitos pais dão um
passo (que não é para a frente, nem para trás) em perpetuar o último
momento de vida dos filhos em algo eterno, idêntico a um memorial.
E transformam um quarto, que já foi
habitado, num compartimento museu.
É o gesto do reconhecimento e da
perpetuação. É a oferenda sentida como justa dos pais, ao filho(a) que
partiu.
Mas os dias não se refazem quando
ficam apoiados apenas na memória. Os dias constituídos de ausência e
distância, não sobrevivem somente a partir dos objectos reais e
físicos que enchem um quarto. As memórias, as grandes memórias, são de
objectos sem corpo. A recordação que se tem dos primeiros passos de um
filho, da primeira papa, das primeiras palavras, a entrada na escola, as
viagens que se fizeram, ficam essencialmente registadas no coração de
pais dedicados.
Por isso, um quarto de um filho que
parte, não é um quarto que fica.
É um quarto que aguarda a presença
e está disponível à experiência da partilha.
Nada é imune ao tempo, que é
resistente apenas a si próprio. E um quarto, não serve apenas para ser
visitado, mas pelo contrário, usado com todo o tipo de sentimentos,
desde a ternura e a fúria, ao carinho e tristeza e todos os outros sem
nome.
O quarto não é o palco de vida do
filho que partiu, mas a alma dele que continuará sempre presente.
Dr.Carlos Céu e Silva
Psicólogo Clínico