"Um grito"
Este
grito sem som, é a voz que me acompanha. É a tua voz, silenciosa e
branda, doce como o mel, que percorre dentro de mim, como se fosses o
meu sangue. E é este calor ténue, que me mantém desperto e quase feliz.
Assim,
custa-me menos levantar e custa-me muito menos, manter-me ocupado com um
trabalho que já não me diz nada. Assim, olho para a luz do sol, e vejo
que os dias, também morrem, a cada fim de tarde e cada noite, é uma
outra noite, quando a aurora se ergue imponente e quase autoritária.
A vida
também é assim. A tua foi assim. Uma vida própria, definida num tempo
que todos nós, assistimos. A tua vida, teve um ciclo próprio, com um
princípio não muito longínquo e procurou um fim, à vista de todos, para
ficar tanto de ti, no ar, nos nossos gestos, pensamentos e nas
conversas, muitas vezes caladas.
Mas o
grito mantém-se inalterado. Foi aquele que eu dei, quando te vi fechar
os olhos, como as cortinas do palco, se abrem, quando o espectáculo
começa. As tuas pálpebras, quando se fecharam, atiraram - me para o
palco, agarrado a um texto de páginas em branco e completamente só, fui
obrigado a aprender a representar.
Mas não
foi preciso. O grito, que saiu de mim, ou veio de ti? Esse grito, entrou
no meu corpo, rumo à alma e lá se instalou até hoje.
E até
hoje, e amanhã e daqui até ao meu último dia de pessoa que vive, andarei
com o teu grito, ao meu lado, como luz, farol, sombra, fonte, destino.
Andarei sempre acompanhado, contigo. Mas, não te quero ver cansado. E se
precisares de colo, não fales, basta atirares-me um sinal e eu, abrirei
os braços, para te afagar.
E assim,
ficaremos em silêncio, num silêncio que é o grito de dor da nossa
existência.
Dr.Carlos Céu e Silva
Psicólogo Clínico