"O Acidente"
Não é só aquela estrada, aquele troço, aquela linha recta depois da
curva, aquela berma desalinhada, aquela hora maldita e aquele instante
de segundo que devia ter estancado, deixado de existir, aquele momento
sem luz própria, brilho artificial dos faróis que iluminam o asfalto e
não apagam o cansaço, é o peso das estrelas a esmagar o tecto do carro e
nos teus olhos ficaram pendurados desenhos de ouro, é o vento arrancado
da travagem e o instante que se cola no choque e faz, daquela estrada,
daquele troço, para lá da linha recta, o lugar firme da berma miserável,
banal, incredulamente absurda.
Depois, vem o filme. Sempre igual. Sem história coerente, sem sentido,
desequilibrado, desajustado, com um fim incorrecto, desadequado.
É uma história sem pés nem cabeça, cruel, perversa, injusta, maléfica. É
uma história sem autor, com assinatura irreconhecível.
E a história resume-se em linhas, porque só poderia ser contada num
livro de mil páginas. Um livro de outros mil capítulos, com milhões de
palavras, reunidas à volta do que já não pode ser contado.
Um livro de capa dura, mais dura que a chapa do carro, a pedra da berma,
o alcatrão do asfalto. Uma capa sem título. A preto e branco. Ou com
uma das cores. Tanto faz.
Porque não é só aquela estrada, são todas as estradas, caminhos, ruas e
atalhos, são os cruzamentos, pontes e viadutos, os candeeiros, os raids,
os sinais. São as pessoas. O álcool, o cansaço, a tristeza, a
velocidade, o fim de cada viagem.
A miragem, O sonho. A vontade de chegar cada dia, ao mesmo lugar, ou o
desejo de partir, para um sítio novo.
Aquela estrada, presa ao troço depois da curva, entre a berma e a hora
fatal, o acidente, o carro potente que ficou esmagado e tu, tu, deitado
dentro de mim, a sorrir como se a vida fosse uma história de destinos
comandados com controlo pessoal.
Dr.Carlos Céu e Silva
Psicólogo Clínico