"Um sorriso matinal"
Acordei a pensar em ti.
Malditas manhãs que são todas iguais.
Ou serei eu que não mudo? Ou não quero mudar!
Mas, acordei hoje, como ontem, desde há tanto tempo, a pensar em ti.
Não são saudades apenas. Ou são e eu é que não quero confessar.
Mas, acordei a pensar em ti e quero ficar na tua companhia.
Sabe-me bem ter-te comigo. Desde a manhã até ao fim do dia. Poder contar
contigo e saber que tu nunca me abandonarás.
Mas as manhãs são terríveis. Acordo e vejo que a vida lá fora não pára.
E não consigo entender: para quê tanta pressa? Tanta correria?
Mas depois, caio em mim, e vejo-te, tranquilo, dentro de mim, e os dois,
conversamos sobre tudo e nada e eu, até consigo sorrir. Só, às vezes.
Deixei de gostar de sorrir, contra a tua vontade.
Mas, cada manhã que surge, traz-me à memória, a tua presença. E fecho os
olhos, com força, muita força e peço um desejo apenas: Aparece, volta!
Mas como és ingrato. Não vens ter comigo. Só em memória. Parece que tens
medo. Mas nada receis.
Hoje, porque acordei como ontem, e anteontem, e há anos assim, a pensar
em ti. Eu queria muito, tocar-te, abraçar-te, falar um pouco e afagar a
tua roupa.
Queria, queria…
Como somos tão egoístas… Tu, aí onde estás, deves ser um cavaleiro
feliz. E eu, que deveria desejar estar nas tuas aventuras, visto-me de
saudade e, acordo hoje, como ontem, anteontem e sempre, com o peso das
manhãs e a sua fealdade.
Hoje queria-te aqui ao meu lado. Queria falar-te das nossas coisas. Do
nosso tempo. Queria que esta manhã morresse de vez, para que tu, em vez
de chegares até mim, em pensamento, viesses com o teu peso de filho.
Queria só, dar-te um beijo de bom-dia, para eu ir para a rua, com o meu
sorriso antigo e que já esqueci.
Dr.Carlos Céu e Silva
Psicólogo Clínico