Olho para
ti e já não te vejo. Assusto-me perante tal evidência. Mas tu, eras o
meu filho. Aquele que andava sempre a correr. Tinha sempre pressa de
chegar. Aonde?
Apetece-me perguntar-te agora, qual era a tua meta. Que sonhos povoavam
tua mente alvoraçada?
Olho para
ti, para a mobília do teu quarto e volto a olhar para ti, e vejo-te
fora, longe daqui, de mim.
Pergunto-me porque foste embora. Se era preciso partir tão cedo e sem
deixar um aviso ou um sinal qualquer.
Era a tua
pressa, julgo eu, mas sei, que isto é tudo uma mentira que eu inventei,
para suportar condignamente a tua ausência.
Mas,
aqui, no teu quarto, é como se estivesse sentado ao teu lado. E como é
bom, manter-me quieto, a ouvir a tua respiração que eu não esqueço. E o
movimento dos teus olhos que não param. Eras tão curioso, estavas sempre
insatisfeito. Mas também eras muito feliz, meu filho.
Estou
aqui, sentado. O teu quarto, não sei se está igual. Se tu estivesses
aqui, claro que ele estaria todo desarrumado. Era roupa pelo chão, cd’s
em cima da mesa, era o computador ligado a noite toda, eras tu, nas tuas
coisas, sempre entretido.
Por isso,
estou aqui. Espero que chegues a horas decentes para eu ainda pode falar
contigo um pouco. Saber como correu o dia e o que fizeste.
Gosto de
olhar para o teu quarto e saber que ele pertence todo a ti. Á tua
imagem. E está como tu o deixaste.
Mas,
deixa-me dizer-te, filho, que o quarto, que é teu, também passou a ser
meu. Quando puder, virei para aqui, ouvir as minhas músicas e trazer os
meus livros e jornais. Tenho tanta coisa em mente e o tempo não me pode
faltar.
Não é o
tempo, filho, é a pressa de chegar a casa, e estar contigo. E as horas
passam e quando dou por mim, é tão tarde, que o dia, o que vem a seguir,
irrompe pela manhã e eu tenho que partir.
Quem me
dera poder ficar sempre aqui. Não, não é isso que eu quero. O que eu
mais gosto, é estar aqui, no teu quarto, a ver-te como eu te vejo, e
saber, que já não vou brincar contigo, porque não tens idade para isso,
mas vou poder olhar para ti, que cresces a olhos vistos e não te
esqueceres que eu estou aqui, ao teu lado, para o que der e vier, e se
for necessário, abraçar-te-ei, com tanta ternura, que esqueço tudo e vou
querer muito ser tão feliz, como tu foste, enquanto este quarto que é
teu, por ti foi usado, mesmo quando fechavas a porta e dizias na tua voz
adolescente: “por favor, pai, agora não”.
Como
compreendo agora o teu desejo de liberdade...
Dr.Carlos Céu e Silva
Psicólogo Clínico