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Janelas Abertas - Janeiro 2009

Mês Anterior
 

"Carta a um filho"

             

             

Olho para ti e já não te vejo. Assusto-me perante tal evidência. Mas tu, eras o meu filho. Aquele que andava sempre a correr. Tinha sempre pressa de chegar. Aonde?

            

Apetece-me perguntar-te agora, qual era a tua meta. Que sonhos povoavam tua mente alvoraçada?

 

Olho para ti, para a mobília do teu quarto e volto a olhar para ti, e vejo-te fora, longe daqui, de mim.

 

Pergunto-me porque foste embora. Se era preciso partir tão cedo e sem deixar um aviso ou um sinal qualquer.

 

Era a tua pressa, julgo eu, mas sei, que isto é tudo uma mentira que eu inventei, para suportar condignamente a tua ausência.

 

Mas, aqui, no teu quarto, é como se estivesse sentado ao teu lado. E como é bom, manter-me quieto, a ouvir a tua respiração que eu não esqueço. E o  movimento dos teus olhos que não param. Eras tão curioso, estavas sempre insatisfeito. Mas também eras muito feliz, meu filho.

 

Estou aqui, sentado. O teu quarto, não sei se está igual. Se tu estivesses aqui, claro que ele estaria todo desarrumado. Era roupa pelo chão, cd’s em cima da mesa, era o computador ligado a noite toda, eras tu, nas tuas coisas, sempre entretido.

Por isso, estou aqui. Espero que chegues a horas decentes para eu ainda pode falar contigo um pouco. Saber como correu o dia e o que fizeste.

 

Gosto de olhar para o teu quarto e saber que ele pertence todo a ti. Á tua imagem. E está como tu o deixaste.

Mas, deixa-me dizer-te, filho, que o quarto, que é teu, também passou a ser meu. Quando puder, virei para aqui, ouvir as minhas músicas e trazer os meus livros e jornais. Tenho tanta coisa em mente e o tempo não me pode faltar.

 

Não é o tempo, filho, é a pressa de chegar a casa, e estar contigo. E as horas passam e quando dou por mim, é tão tarde, que o dia, o que vem a seguir, irrompe pela manhã e eu tenho que partir.

 

Quem me dera poder ficar sempre aqui. Não, não é isso que eu quero. O que eu mais gosto, é estar aqui, no teu quarto, a ver-te como eu te vejo, e saber, que já não vou brincar contigo, porque não tens idade para isso, mas vou poder olhar para ti, que cresces a olhos vistos e não te esqueceres que eu estou aqui, ao teu lado, para o que der e vier, e se for necessário, abraçar-te-ei, com tanta ternura, que esqueço tudo e vou querer muito ser tão feliz, como tu foste, enquanto este quarto que é teu, por ti foi usado, mesmo quando fechavas a porta e dizias na tua voz adolescente: “por favor, pai, agora não”.

 

Como compreendo agora o teu desejo de liberdade...

 

 Dr.Carlos Céu e Silva

Psicólogo Clínico

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design oferecido por IMAGO  desenvolvimento oferecido por Jaime Guisado