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Janelas Abertas - Fevereiro 2009

Mês Anterior
 

"Um sentido para a vida"

             

              A escuridão entrou em mim como um sol abrasador. Foi mais violento que um soco directo no estômago. E andei assim, vacilante, durante muito tempo. Até que ceguei por completo e comecei a ver tudo de uma outra forma. Que forma era essa? Não sei...Sabes tu, filho?

 

Um dia antes, ou dois, estavas tu sentado à minha frente, a falar de projectos em torno da tua vida. O que ias fazer num futuro próximo, que soluções era preciso encontrar, enfim, conversa normal para um assunto que te interessava muito e que tinha a ver contigo e com a tua vida profissional.

 

Isso, tinha sido um dia ou dois antes. Depois, olhando para trás e para esses últimos momentos a dois que tivemos, em que tanto conversámos e trocámos tantos planos e ideias, em surdina,  tomas uma decisão precipitada.

 

Que maneira estranha de dizer, que acabaste com a tua vida, lá em casa, mais propriamente no teu quarto, depois de vires da escola, teres almoçado e arrumado a loiça suja na máquina.

 

Nem foi preciso trancar a porta. Apenas um bilhete escrito à mão, com data antiga, a dizer o que eu acho, desculpa filho,  serem banalidades. Palavras ternas e suaves, porque são todas tuas, cheias de luz e graciosidade, que mais pareciam o itinerário sonhado de quem acredita na vida e quer criar e realizar projectos.

 

Palavras que eu não quis gravar mas ficaram presas nas minhas noites de muitas insónias. Noites cerradas por onde andei, sem rumo e tino, à procura de respostas, dizem uns, mas principalmente à procura de uma explicação arrancada a mim mesmo, a partir do filho que eu pensava tão bem conhecer e poder confiar.

 

E essas palavras com cheiro a mel e bruma, não passavam de carvão em brasa que eu sentia perpassar por todo o meu corpo. E as noites, que muitas  vezes eram de luar, ou não, deixavam-me confortável no breu da minha irrequieta deambulação. Foi tanto o tempo assim passado, que eu esqueci da tua morte encenada e passei a sonhar na minha...

 

Depois, vieram as vozes de todos aqueles que nos rodeiam. Os teus irmãos que estão vivos, dos amigos que não se esquivam aos abraços e de outros, poucos, mas são outros, que também te conheceram e queriam muito continuar a ter-te aqui, ao nosso lado, como um soldado de pacíficas acções, a plantar nas batalhas do dia-a-dia os jardins que ainda faltam cultivar, no mundo inteiro.

 

As tuas palavras naquele bilhete escrito à mão, se tu estivesses vivo ainda, podiam ser recitadas em voz alta, em silêncio, enquanto o sol forte, nos fita e entra dentro de nós, até nos cegar completamente.

Só assim, saberíamos encontrar algum sentido para a vida.

 

 Dr.Carlos Céu e Silva

Psicólogo Clínico

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design oferecido por IMAGO  desenvolvimento oferecido por Jaime Guisado