A escuridão entrou em mim como um sol abrasador.
Foi mais violento que um soco directo no estômago. E andei assim,
vacilante, durante muito tempo. Até que ceguei por completo e comecei a
ver tudo de uma outra forma. Que forma era essa? Não sei...Sabes tu,
filho?
Um dia
antes, ou dois, estavas tu sentado à minha frente, a falar de projectos
em torno da tua vida. O que ias fazer num futuro próximo, que soluções
era preciso encontrar, enfim, conversa normal para um assunto que te
interessava muito e que tinha a ver contigo e com a tua vida
profissional.
Isso,
tinha sido um dia ou dois antes. Depois, olhando para trás e para esses
últimos momentos a dois que tivemos, em que tanto conversámos e trocámos
tantos planos e ideias, em surdina, tomas uma decisão precipitada.
Que
maneira estranha de dizer, que acabaste com a tua vida, lá em casa, mais
propriamente no teu quarto, depois de vires da escola, teres almoçado e
arrumado a loiça suja na máquina.
Nem foi
preciso trancar a porta. Apenas um bilhete escrito à mão, com data
antiga, a dizer o que eu acho, desculpa filho, serem banalidades.
Palavras ternas e suaves, porque são todas tuas, cheias de luz e
graciosidade, que mais pareciam o itinerário sonhado de quem acredita na
vida e quer criar e realizar projectos.
Palavras
que eu não quis gravar mas ficaram presas nas minhas noites de muitas
insónias. Noites cerradas por onde andei, sem rumo e tino, à procura de
respostas, dizem uns, mas principalmente à procura de uma explicação
arrancada a mim mesmo, a partir do filho que eu pensava tão bem conhecer
e poder confiar.
E essas
palavras com cheiro a mel e bruma, não passavam de carvão em brasa que
eu sentia perpassar por todo o meu corpo. E as noites, que muitas vezes
eram de luar, ou não, deixavam-me confortável no breu da minha
irrequieta deambulação. Foi tanto o tempo assim passado, que eu esqueci
da tua morte encenada e passei a sonhar na minha...
Depois,
vieram as vozes de todos aqueles que nos rodeiam. Os teus irmãos que
estão vivos, dos amigos que não se esquivam aos abraços e de outros,
poucos, mas são outros, que também te conheceram e queriam muito
continuar a ter-te aqui, ao nosso lado, como um soldado de pacíficas
acções, a plantar nas batalhas do dia-a-dia os jardins que ainda faltam
cultivar, no mundo inteiro.
As tuas
palavras naquele bilhete escrito à mão, se tu estivesses vivo ainda,
podiam ser recitadas em voz alta, em silêncio, enquanto o sol forte, nos
fita e entra dentro de nós, até nos cegar completamente.
Só assim,
saberíamos encontrar algum sentido para a vida.
Dr.Carlos Céu e Silva
Psicólogo Clínico