"O Paraíso"
Ao teu lado, estou eu. Sempre ao teu lado, como não podia deixar de
ser. E gosto ficar ao teu lado. Como um discípulo dedicado. Que é o que
eu sou. E fico a olhar para ti, para o teu rosto de adulto, mas os olhos
são frágeis e pequenos. Mas já foram grandes e ágeis. Eram olhos
irrequietos como tu. Como todas as crianças que voam por dentro e correm
desaustinadas para todo o lado.
E fico a ver-te. O teu cabelo que mudou de cor. Não porque a luz do sol
entre como a água de uma fonte, ou porque é noite, e o brilho das
estrelas desenham sóis pequenos dentro do teu quarto. É o teu cabelo que
revela o teu cansaço e balbucia dor e desalento. E passo as minhas mãos
por ele. É como se elas percorressem o teu corpo em carícias de algodão.
Gosto de sentir o teu cabelo nas minhas mãos. Eles respiram o teu
respirar. Os teus cabelos falam comigo uma linguagem de silêncio,
cumplicidade e dedicação.
Como é bom estar contigo, na cama, ver-me sentado ao teu lado, numa
quase meditação. Se bem que às vezes, estou a chorar por dentro, é um
choro grande e forte. Mas o teu sorriso frágil, dá-me esperança e aquece
não só o meu coração como as mãos, que depois tocam, nas tuas em suaves
carícias.
Como é bom estares aqui ao meu lado. Na cama que te abriga. E eu, ao teu
lado. Como um discípulo. Um guarda. Não sei. Como um pai, que quer
ajudar-te a abrir a tua estrada da vida. Que quer ser o teu companheiro
fiel, para percorrermos juntos até onde conseguirmos ir. Sempre com a
mesma força.
Teus olhos estão pequenos. Combinam com a tua boca discreta e
preguiçosa. Ela não quer falar, também não quer mastigar, também não
quer acrescentar nada. Temos tudo para dizer, tudo mesmo e falta o
tempo. Como sabes, nunca poderemos dizer tudo um ao outro. Nem que
vivamos os dois, cada um, mais de cem anos.
Mas eu quero estar aqui. Ao teu lado. Sem pressa que o mundo acabe, o
emprego solicite a minha presença, e o resto das coisas que decoram a
vida, apelem por mim, porque eu aqui contigo ao lado, não preciso mudar
de direcção.
Não! É aqui que eu quero ficar. E mesmo, quando outros dias vierem sem
autorização, separar os nossos corpos cansados e iguais na dor, mesmo
aí, eu vou até ti, mesmo que aparentemente estejas já longe de mim.
Naquele lugar bonito, que tu segredaste ao meu ouvido, não faz muito
tempo:
- Deixa-me, pai. Eu já estou no paraíso.
É. Já lá estavas. Mesmo comigo ao teu lado, Eu é que não sabia ainda,
como chegar até ele. Foi o que tu não me quiseste ensinar, enquanto eu
estava ao teu lado, a desfiar os cabelos, como teias presas a um destino
feito de passado ou a sonhar só para dentro de mim.
Dr.Carlos Céu e Silva
Psicólogo Clínico