"Posso voar"
“Posso voar, pai?”
E as palavras nem chegavam a sair da boca, bastava a voz do
olhar. E no espaço em redor, quintal pequeno mas aberto ao céu, crescia
um prado imenso, verdejante e fofo, onde o teu corpo pequeno rodopiava,
numa dança feliz.
“Posso
voar, pai?”
Foi assim
durante muito tempo. O tempo quase todo da tua infância.
Teus
olhos, agarravam-se às tuas mãos pequenas mas cheias de força e
pintavam,
desenhos
no ar, com uma naturalidade surpreendente. Todos sabíamos que o teu
sonho de gente grande era vires a ser artista.
E para
mim, tens sido essa artista completa. Durante muito tempo, porque as
infâncias, às vezes, também são demasiado longas, o nosso quintal de
brincadeiras e tropelias, perpetuou os teus passos e estranhos
movimentos que foram mais à frente que o sonho que eu tinha idealizado
para ti.
“Posso
voar, pai?”
Mas assim
como a chuva e o vento, quando cansados, desaparecem, também tu,
precisavas de crescer. Só que de uma forma diferente e menos boa, para
mim.
Mas
sabes: desde que decidiste voar, eu perdi todos os medos que tinha, e
eram tantos, que fui obrigado a crescer e tornar-me no adulto que nunca
tinha sido até aí, e no pai, que aprendi a ser, depois da tua ausência.
“Posso
voar, pai?”
Mas, nem
sempre fui a pessoa que tu querias que eu fosse, na ingenuidade feliz da
tua infância.
Mas, as
crianças querem sempre tantas coisas e a nós, adultos ensinam-nos outras
tantas coisas estranhas, e dizem-nos para não satisfazer todos os
caprichos.
Mesmo
aqueles que tem o nome lindo da saudade.
“Posso
voar, pai?”
Claro,
minha filha, voa no céu todo e que tuas asas, de papel brilhante,
risquem de azul e de todas as cores, o tecto do mundo e da vida, E nos
teus voos, sem tempo marcado, percorras as viagens que um dia irias
desejar correr, e, se te perderes, eu estarei aqui em baixo, a ver-te,
voar, como o pássaro livre, perfeito e belo que sempre serás.
Dr.Carlos Céu e Silva
Psicólogo Clínico