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Quando eu era menina, dizia-se: ano novo, vida nova. Era um
motivo para se formular algum desejo e concretizá-lo, ou para se aperfeiçoar
algo na nossa vida. Nós precisamos de ter metas a atingir, que nos
incentivem e ponham em acção a nossa força de vontade. E eu ainda penso,
apesar de a minha meninice já ir longe que, o começo de cada ano, é uma
ocasião propícia para se tomarem decisões.
Mas para nós, mães e pais que vimos partir os nossos filhos, que temos os
corações cheios de cicatrizes, que choramos a ausência deles e vivemos
envoltos numa nuvem densa de saudades, será que podemos sonhar algo para
este novo ano? Creio que sim.
À partida temos a força do sofrimento. É um impulso que, se nós deixarmos,
nos projecta para a frente. O amor dos nossos filhos vive em nós. Nós
demos-lhe a vida, ensinámos-lhe a dar os primeiros passos, a balbuciar as
primeiras palavras, cuidámos deles com beijos e carícias. Dissemos-lhes que
neste mundo há coisas muito belas e preparámo-los também para enfrentar as
barreiras que sempre aparecem no caminho de cada um.
Mas eles nada nos ficaram a dever. O seu amor, a felicidade que nos deram,
os dias que passaram connosco foram, decerto, muito enriquecedores para
todos os pais.
Então, nós que ficámos cá ainda a calcorrear a nossa estrada temos que fazer
frutificar tudo aquilo que de bom os nossos meninos nos deixaram. E não é
difícil. Tentar minorar o sofrimento daqueles que passam ao nosso lado, seja
com um sorriso, com um abraço ou com palavras de conforto. Dando mais amor
àqueles que vivem junto de nós e que por vezes são um pouco esquecidos
porque a ausência do filho que morreu se sobrepõe a todos. Ajudando alguém
que vive em solidão, dando o nosso apoio material, se for caso disso, ou
ajudando em pequenos trabalhos pessoas que não têm ninguém que delas se
abeire.
Tudo aquilo que fizermos aos outros, façamo-lo como se fosse o nosso filho a
fazê-lo. Como se fosse uma tarefa dele. E ele, lá no lugar onde está,
sentir-se-á muito orgulhoso dos pais que tem. Deus nunca deixa sem
recompensa tudo o que nós pudermos fazer para bem do nosso próximo. E como
poderá Ele esquecer o modo como estamos a converter o nosso sofrimento, a
dor que reside no nosso coração, para agradecer ao filho que vimos partir, a
felicidade que nos deu aqui na terra?
Então, neste novo ano tentemos sublimar o nosso sofrimento com algum bom
propósito. E pensemos todos os dias no bom que foi ter aqui o nosso filho e
que nos estamos a preparar para um dia o encontrar de novo. É uma palavra
que devemos cultivar: esperança. Essa esperança será cada vez maior quanto
mais nos entregarmos aos outros.
O sofrimento pode transformar-se em esperança. E essa força poderá ser um
meio para nos levantarmos e prosseguirmos o nosso caminho até ao dia do
reencontro.
A força da esperança
dar-nos-á coragem para repartirmos o nosso amor, sentir mais a presença do
nosso filho (que está junto de nós mas que nós não vemos fisicamente), para
aprendermos a sorrir de novo e para melhor aproveitarmos tudo o que de bom,
dia a dia, passa ao nosso lado. O nosso sofrimento é o maior de todos. Disso
estamos bem certos. Mas para quem não sabe o que isso é, há outros
sofrimentos que esmagam e destroem vidas. Estejamos atentos. Encontraremos,
decerto, muita maneira de podermos fazer algo de novo neste ano.
A força da esperança
de um dia voltarmos a abraçar o nosso filho e o amor que ele tem por nós,
será o nosso ponto de partida.
Maria Clara Rodrigues
"Tir na n'Og"
P.Quefféléant - La Harpe Céltique |