|
Eduarda de todos os tempos
Vou inflamar a imaginação humana e falar sobre a pessoa que mais amo nesta
vida e também acerca de um lugar sagrado que todos os seres vivos sabem que
existe mas onde ainda ninguém foi. É lá que já se encontra a minha querida
filha Eduarda Santos, desde o dia 18 de Maio de 2006. Por isso, perante o
meu sofrimento, da mãe, dos avós, tia, cunhado e restante família, permitam
que dedique este editorial e uma parte desta edição do NOTÍCIAS DE COLMEIAS
em homenagem à minha querida filha que fatalmente perdeu a vida num acidente
de viação num final de tarde “sombrio”. Já agora, foi a minha querida
Eduarda que muitas vezes esperou por mim quando vos preparava as edições do
nosso jornal. Só por isso ela já é merecedora deste destaque e também de um
pedido de desculpas de um pai que a ama, que é sabedor que tudo fez para a
fazer feliz mas que talvez pudesse ter estado um pouco mais presente.
Permitam também endereçar um abraço de esperança e de paz ao jovem que
atropelou a minha querida filha. Sei que sofre também. Sei, por também
conduzir todos os dias, que amanhã, ou depois de amanhã, poderá acontecer-me
uma fatalidade desta natureza. Por isso, todos nós devemos ter muito
respeito perante estas ocasiões ocultas das nossas vidas. Peço a Deus que
semelhante tragédia nunca me aconteça. Por tudo isto, nada existe a
desculpar a este jovem que sofre e que ficará com marcas para o resto da
vida.
Quanto à Eduarda, ela partiu deste mundo, da sua parte terrena, voando para
o cimo celestial. Na rede da vida existem mistérios por desvendar.
Infelizmente nem eu, nem ninguém, sabe ao certo o que existe para lá da
existência terrena. Não queremos que os que mais amamos efectuem essa
passagem. Desejamos que fiquem connosco. Mas, na verdade, a partida de
muitas pessoas para a liberdade do céu, para a “terra” da abundância,
acontece a todos os seres que percorrem a vida. Acontece-nos mais cedo ou
mais tarde. Foi assim com a minha querida Eduarda, quando somava apenas 5
aninhos.
Mas sei que irá haver noutra dimensão um ponto de encontro. Nessa ocasião,
renascerão quantidades de alegria inesgotáveis e tudo o que parece perdido
neste momento estará amplamente ganho. Perante a minha impotência, a minha
tristeza, mágoa e dor, deixo uma pergunta a todos os que estejam a ler este
texto dedicado à minha filhinha. Para quê disputas ilógicas neste mundo
passageiro?
A Eduarda estará sempre nas melhores memórias dos que com ela partilharam
estes poucos mas confortantes aninhos de vida: dos colegas da Escola João de
Deus, dos amiguinhos das Colmeias e dos Pousos, de toda a família que a
adorava, de mim como pai que a amava e muito especialmente da Cristina, que
foi exímia na sua missão de mãe, cumprindo e extravasando todas as suas
tarefas para acarinhar, educar e acompanhar a Eduarda em todas as suas
etapas.
Aqui, neste mundo, fiquei a saber que no jardim de minha casa, apenas falta
a flor mais bela: a minha “Serzinha”. Mas agora, o habitat incomparável da
Eduarda, o toque permanente de Deus e de toda a sua messe, que a guarda e
orienta permanentemente, também serve de alívio para toda a minha dor.
Percebo, entendo agora muito mais, que a vida tem um valor perene. Que num
determinado momento, somos transportados para a abundância e abrigo do Céu.
Para um lugar divino.
Confesso que tudo parece ter ficado imóvel e silencioso sem a presença da
minha Eduarda. Mas os muitos momentos bons e a esperança de que quando Deus
quiser, seremos igualmente convidados a efectuar uma aproximação ao seu
mundo. Conforta-me que quando chegarmos, ela estará de braços abertos para
nos acolher e com o seu sorriso, o mais lindo que conheci.
Eduarda, agora, olho para o Céu, onde tu estás, e sei que todas as estrelas
que avisto são enviadas por ti, para iluminarem o coração da mamã e do papá.
E que os nossos dias vão adquirindo mais cor, porque tu, com a tua magia e
varinha de fada que tanto gostavas de usar, tornas todos os momentos
infinitamente coloridos.
Aqui, neste espaço terrestre, sei que foste feliz. Isso também me conforta.
Por isso, já sinto os teus voos rasantes a orientarem os nossos caminhos e,
com o teu jeitinho especial, tens convertido o que parecia impossível na
confirmação de uma felicidade, que gradualmente vai tomando lugar em nós que
por cá ficámos.
Quase a terminar, sei que neste mês de Junho em que se comemora Portugal,
não devo ignorar a tua inteligência notória. Com apenas 5 aninhos já sabias
ler e escrever, sabias contar até 150, eras uma promissora bailarina e
nadadora e tinhas um coração do tamanho do mundo para com os teus
amiguinhos. Eras o ídolo de todos eles nas brincadeiras, na tua já tão
vincada personalidade. Também isto era e continua a ser o orgulho do papá e
da mamã.
No dia trágico em que inesperadamente foste chamada para junto de Deus,
tão bem entregue estás, (pois quem melhor do que Ele para tomar conta de
ti?), recordo com brio os momentos que passámos juntos na Feira de Leiria.
Deste-me tantos beijinhos, desfrutaste das diversões e disseste
convictamente que amavas o papá e a mamã. Que conforto ouvir isso de ti, meu
Anjinho.
Quando me levanto, pergunto o que vou e para quem fazer? Qual a motivação?
Mas a convicção de que estarás bem, ajuda-me a mim e à tua mãe a recuperar
do irrecuperável. Antes éramos nós que tomávamos conta de ti. Presentemente
tenho a certeza absoluta que és tu a tomares conta de nós.
Neste momento, os dias e as noites parecem mais longos e difíceis. Tomamos
aqueles químicos que nos ajudam a descansar e a encarar a vida. Mas nada
alivia a tua falta, a saudade de ti. Mas, meu Deus, que bom saber que estás
bem. Que te encontras em segurança e desfrutas lá de cima de uma visão
espectacular. Protege-nos. Eduarda Santos, és a nossa Alma Peregrina.
Joaquim Santos
Notícias de Colmeias
Edição nº 78
4 de Junho de 2006
|
|