Mistério de Ser Mãe
Mas num tempo de velocidade e derrapagem, tempo de rei-dinheiro e
de aparato, de ruído e telemóvel, quem para silenciar, em comoção, tal
mistério, que os próprios cientistas dizem ser extraordinário,
enigmático mesmo, ou, no mínimo, não totalmente resolvido? Porque o
embrião deveria ser considerado como um corpo estranho pelo sistema
imunitário da mãe, dado que metade dos genes que o constituem é do pai.
Como qualquer implante, devia ser rejeitado ao fim de uma ou duas
semanas. E não é. E mais: aumentando o peso da placenta, a cada nova
gravidez, a rejeição seria inevitável, se acontecesse como nos
transplantes de coração, do fígado ou dos rins.
Em palavras sábias, o escritor Vergílio Ferreira diz que, se nos sair a
sorte grande, até parece um sonho, coisa inacreditável… Saiu o número certo entre dezenas de milhares ou mesmo
centenas! “Mas teres nascido é ter-te saído a sorte entre biliões e
biliões e biliões de hipóteses negativas…Tens pois o privilégio incrível
de veres o sol, as flores, os animais.”
Quando as Mães passeiam com seus filhos nos jardins, aproximam-se,
sem que claramente o saibam, do que permanece, do que é sereno, do que
acalma: de árvores e de flores, força e beleza. Mas igualmente de
sementes que, caindo, dizem da morte e também do renascer. Mães-sibilas,
premiadas com o maior dos prémios e o melhor dos dons.
Mas em algumas mulheres, misérias, ignorâncias e ruídos abafaram o
mistério e o prémio e o dom.
Neste dia, um voto: que as Mães-Sibilas que passeiam os seus filhos
nos jardins, e lhes cantam e contam pela noite, até que adormeçam,
ajudem as outras, as Mães castigadas por ignorâncias e falsos ruídos, a
envaidecer-se por possuírem o maior dos tesouros, o melhor dos
mistérios.
Isabel de Castro Marnoto
|