PORQUÊ?, porquê? -
Confidencias de quem perde um filho"
Autor(es): António Felgueiras
Editora: Occidentalis
Resumo:
Para os clássicos a pior tragédia era
sobreviver à morte dos filhos.
António José Sarmento Felgueiras
perdeu o Ricardo e relata-nos o sofrimento causado por esse vazio na
vida de uma família, num livro que pretende ser um traço de união,
uma partilha, com todos os que tendo passado por tamanho infortúnio
continuam a encarar a vida com esperança e amor.
Prefácio:
Li algures – já não sei onde, nem quando – que as grandes dores se sofrem
no silêncio do mais íntimo do nosso ser. Se é verdade que, até certo
ponto, entendo a intenção do autor, também não posso deixar de
discordar dele por duas razões fundamentais.
Por um lado, qualquer psicólogo dirá que uma dor silenciada facilmente se
pode transformar num quisto psicológico cancerígeno, se me é permitida a
metáfora, susceptível de consumir a vida de quem a sofre e de todos
quantos o rodeiam.
Por outro lado, a partilha da dor pode transformar-se em bálsamo, não só
para quem a partilha, como também para todos quantos já passaram ou
virão a passar por situações idênticas. Nós não somos ilhas, rodeadas de
inimigos por todos os lados. Pelo contrário, como diziam os
existencialistas, o homem é um ser-com-os-outros. Aliás, já Aristóteles
dizia que o homem é, por natureza, um ser social, ou seja, um ser que
não pode viver sem os outros. Tanto a formulação aristotélica como a
existencialista querem dizer que faz parte da natureza intrínseca do ser
humano a interdependência entre todos. Ninguém é um produto exclusivo de
si próprio. Desde a concepção ao nascimento e depois pela vida fora,
nenhum ser humano consegue sobreviver nem subsistir sem a ajuda dos
outros. Por isso, diz muito bem Piaget que ser pessoa significa
autonomia, mas significa também reciprocidade, ou seja, cada um de nós
tem uma identidade única e inconfundível que, no entanto, não consegue
afirmar nem realizar sem a ajuda dos outros, o que nos obriga à
reciprocidade.
Consequentemente, a nossa dor também pode ser refrigério para a dor dos
outros, não pela dor em si, mas pelo exemplo de coragem, de resistência
e de dignidade que lhes podemos transmitir. É assim que entendo, não só
como um direito, mas como um dever a partilha da nossa dor com a
sociedade. E é neste quadro que interpreto a publicação deste livro em
que o meu amigo e colega Dr. António Felgueiras está disposto a
partilhar connosco a dor que lhe tomou a alma e se lhe entranhou no
sangue após a morte do seu filho Ricardo.
O Dr. António Felgueiras perdeu um filho na pujança da sua juventude. Um
filho que era bálsamo, não só para os pais e para o irmão, como para
todos os colegas e amigos. Era um jovem idealista, que orientava a sua
vida por um quadro de valores cujas coordenadas eram definidas pela
ajuda aos outros, sobretudo aos que sofrem e aos mais carenciados.
Perder um filho, sobretudo um filho com este perfil e com este carácter,
significa sentir cravado na alma um punhal que ninguém conseguirá
arrancar e que nos fará sangrar a alma por toda a vida.
Todos nós, sobretudo os mais velhos, já passámos certamente momentos de
grande sofrimento ou de muita dor. Alguns de nós já perdemos pais,
irmãos, esposas, maridos ou amigos. Mas, dizia-me um amigo a quem o
cancro levara uma filha, não há dor como a perda de um filho.
Por vezes a dor é tão intensa que sentimos a necessidade de gritar, não
para que nos ouçam, mas para não sufocarmos. Este livro é um grito de
dor, duma dor muito intensa, daquelas dores capazes de nos aniquilar. É
uma dor tão intensa que, por mais anos que se viva, nunca se apagará,
ainda que os outros disso não se apercebam.
Este livro é um grito de dor, mas é também um grito de amor. Um grito de
amor ao Ricardo, em primeiro lugar, mas também um grito de amor e de
gratidão para com todos os que foram solidários com a família do Dr.
António Felgueiras, e é igualmente um grito de amor e de gratidão para
com o Outro em geral. Nas suas páginas e nas suas entrelinhas perpassa
todo o humanismo, toda a fraternidade, toda a solidariedade que já
caracterizavam o temperamento do seu autor, mas que a morte do filho
ajudaram a exponenciar até um nível bem acima do comum dos mortais.
Avisamos desde já os leitores que, dada a sua carga emocional, será muito
difícil ler este livro do princípio ao fim sem as lágrimas lhes turvarem
os olhos.
Termino agradecendo ao Dr. António Felgueiras e à sua esposa o terem
gerado um filho que foi um exemplo de solidariedade humana, assim como
lhes agradeço, em nome de todos os leitores, o exemplo de coragem, de
dignidade e de fé que nos dão com este testemunho de sofrimento e de
abertura ao Outro.
Bragança, 25 de Fevereiro de 2007
César Urbino Rodrigues